sexta-feira, 19 de junho de 2015

O valor da semente

A preservação de sementes é uma das preocupações mais elementares para mim enquanto aspirante a jardineiro e horticultor. A semente é o princípio de tudo. Sem sementes, não há vida. Além do mais, preservar sementes, especialmente aquelas das variedades hortícolas regionais, significa garantir a existência de diversidade genética e, por sua vez, da biodiversidade tão importante para a preservação dos ecossistemas, como também do nosso próprio alimento. A história mostra-nos que, quando a diversidade genética das culturas agrícolas usadas se limita a um número muito restrito, aprofunda-se o risco de uma possível catástrofe alimentar. Se as condições ambientais se tornarem desfavoráveis às poucas variedades cultivadas, estas morrerão e, com elas também a nossa comida desaparecerá. Veja-se o que aconteceu na ilha da Páscoa há alguns séculos atrás. 

Ervilha "Golden Sweet"


Colher sementes torna-se ainda mais recompensador se compreendermos que a sua preservação é parte integrante de um ciclo natural muito maior, no qual a planta germina, cresce, providência alimento e abrigo e, depois de florir e frutificar, produz as sementes que irão garantir a geração seguinte de plantas que, uma vez mais irão providenciar alimento e abrigo para pessoas e animais. E no fim, a planta morre e decompõe-se, adicionando assim nutrientes ao solo. E no ano seguinte, o ciclo recomeça. E nesta cadeia de acontecimentos é bom ver que, nós humanos, podemos intervir enquanto agentes facilitadores deste ciclo e não como destruidores. 

Alface "Bijou"



Aqui no meu jardim, todas as sementes são colhidas depois de secarem naturalmente na planta e, de seguida, guardadas em sacos de papel que permitem a transpiração da semente e devidamente rotulados com o nome e descrição da planta. O que sobrou da planta vai para a compostagem onde, misturada com outros restos do jardim, me permitirá ter em alguns meses um fabuloso composto cheio de nutrientes para enriquecer o solo que irá alimentar a geração seguinte de plantas.

E no fim, é isto que se obtém: um composto escuro e nutritivo.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Novas sementes

Entre as várias tarefas que têm ocupado as últimas semanas, uma delas tem sido a selecção e encomenda de sementes. Nos legumes, a prioridade tem sido dada à diversificação das plantas cultivadas, à escolha de legumes adequados a cada estação e às variedades antigas em risco de extinção (heirloom/heritage). Por isso, agora tenho sementes de legumes dos quatro cantos do mundo: indianas, japonesas, continente americano, etc. A isso acresce novas plantas aromáticas que provavelmente ainda são desconhecidas por este pedaço de terra à beira-mar plantado. 

A escolha dos legumes foi também pensada de forma a escolher as plantas adequadas para a época certa do ano. O Inverno é talvez o período do ano em que as hortas estão mais vazias. Pois eu acho que a minha estará bem lotada. Quem já ouviu falar de malabar, de mizuna, minutina, alface "Amish língua de veado", feijão-ervilha, entre outros? A lista estende-se depois a variedades de melão, abóbora, ervilhas, favas, feijão, courgette, entre outros. Depois de ver isto, quem disse que a nossa alimentação está limitada à minúscula oferta de legumes que se vê no supermercado?

E porque também é fundamental preservar as antigas variedades que com o advento da agricultura industrial foram arredadas para o esquecimento e quase extinção (ou mesmo extinção em muitos casos), tenho variedades cujas origens recuam aos primórdios do século XX, ao longínquo século XIX ou até mesmo a séculos mais distantes. 

Nas flores, a prioridade tem sido dada a plantas com perfume e amigas dos polinizadores, a plantas raras ou a plantas pouco comuns nos nossos jardins. Aqui a dor de cabeça foi maior, mas lá tive de me controlar (por agora) porque há muito para escolher. Na maior parte dos casos optei por escolher plantas tradicionais e sem as quais eu não poderia ter um belo jardim, como as papoilas, as rudbeckias ou as dedaleiras. Mas porque eu gosto de um bom desafio, escolhi também algumas que estão um passo à frente daquilo que é a nossa habitual jardinagem, como as anémonas japonesas ou as astrantias. 

No fim tudo isto enriquece o meu jardim e fortalece o ecossistema ao redor dele. Mal posso esperar 

domingo, 19 de abril de 2015

Quando a Natureza dá uma mãozinha

A utilização de sementes híbridas é já uma habito frequente entre horticultores e jardineiros. Contudo, na Natureza, a produção de híbridos é uma constante entre as plantas devido à polinização cruzada. Basicamente, um híbrido consiste numa nova planta que surgiu como resultado da polinização cruzada entre duas plantas da mesma espécie. 

Aqui no jardim tenho algumas plantas que são muito propensas a criarem híbridos. É o caso das aquilégias, das dedaleiras, das helleborus, ou das phlox. Entre as hortícolas, o caso também é muito comum. Plantas como as alfaces, os tomateiros, os feijões, os pimentos e toda a famílias das curcúbitas (abóboras, courgettes, melões, melancias, pepinos, etc) são muito propensas a cruzarem-se entre si com a ajuda dos polinizadores (abelhas, borboletas, etc) e a criarem novas variedades. 

Claro que, com alguma prática, podemos dar uma ajuda à Natureza e criar novas variedades. Basta seleccionar plantas da mesma espécie que tenham certas características que se pretendem ter numa planta futura, retirar pólen de uma das flores e polinizar a outra. E, assim, passarão a ter variedades únicas no jardim que não existem em mais lado nenhum do mundo. Eu, pessoalmente, no que toca a flores, gosto de esperar por uma boa surpresa no ano que vem. Este ano, coloquei uma aquilégia branca de pétala simples junto de uma aquilégia dobrada cor-de-rosa. No prórimo ano irei colher a semente de ambas e, quem sabe, talvez me apareça uma aquilégia branca de pétalas dobradas ou uma aquilégia de pétalas simples matizada de rosa e branco. A ver vamos. 

Mas por agora, a surpresa deste ano são as Phlox drummondii. No ano passado tinha apenas 4 cores: branco, amarelo/manteiga, rosa claro e rosa escuro. Este ano, a variação de cores é fenomenal. Existem até flores lilases. Pergunto-me como o lilás lá terá ido parar. Não há dia em que me canse de olhar para elas. São fabulosas.  













sexta-feira, 27 de março de 2015

Clematite "Nelly Moser"

A clematite é uma daquela plantas que trepam que só pode acrescentar charme ao jardim. Aqui, eu tenho a clematite "Nelly Moser". A meio da Primavera produz flores bem grandes, com pétalas bordadas de branco e centros rosa. 

Porém, cultivá-las em Portugal é, sem dúvida, um desafio. Elas detestam solos secos e temperaturas altas. Por isso plantei-a à sombra, virada para norte, e não parei de a regar durante todo o verão, por vezes mais do que uma vez ao dia. Tinha dias em que lhe dava um regador de 10 litros sem que ela se chateasse minimamente com isso. Na cova que fiz para a plantar adicionei um bom balde de composto e, no fim, coloquei no solo uma boa cobertura de cascas de madeira para o manter fresco. 

É claro que poderia ir para as clematites do grupo texensis, que são nativas do Texas e convivem bem com o calor e com sol directo. Pessoalmente nunca as vi à venda por cá. Ou então, poderia ir para as clematities viticella, uma espécie nativa de Portugal, mas que infelizmente é mais uma daquelas plantas nossas que não se vêm à venda nos centros de jardinagem. 

Por enquanto, mal posso esperar para a ver inundar a copa do limoeiro com aquelas grandes flores branco rosa. 




Aqui está ela de volta este ano.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Um cantinho especial

As florestas são o meu espaço natural favorito. Adoro aquela oscilação entre sombra e luz, o gorgolejar escondido de um ribeiro oculto, o som do vento nas copas das árvores, o secretismo e misticismo de uma floresta densa, as neblinas que por vezes repousam sobre as copas das árvores e os ocasionais pingos de água que caem das folhas, o cheiro do solo, o orvalho, as plantas que por ali crescem e os pássaros que chilreiam. É um espaço singular com o qual sonho muitas vezes, e no qual adoraria viver. Uma simples e idílica cabana seria o melhor lar que alguma vez poderia ter. Por isso, este ano decidi trazer um pouco desse ambiente para o jardim. 

Aproveitei as árvores existentes e as sombras para criar algo semelhante àquilo que encontraria na floresta. Aqui perto do jardim encontrei partes de uma antiga oliveira cuja madeira estava já esburacada e em decomposição. Estavam no estado ideal. Coloquei-os no jardim, debaixo de uma árvore, e enchi os espaços vagos com solo no qual plantei anémonas. À volta, plantei imensos bolbos: narcisos, íris reticulata, frésias, túlipas, ranunculus, etc. É verdade que alguns, como as frésias, nada têm a ver com os ambientes arborizados, mas aqui entrou o critério pessoal. E claro, as frésias são a minha flor favorita. Por isso, a sua presença era obrigatória. Plantei também fetos, miosótis, ciclamens, dedaleiras, campânulas e aquilégias alpinas. Pelo meio ainda tenho uma bela clematite "Nelly Moser" que, apesar de ser difícil de cultivar no nosso clima quente, sobreviveu bem ao nosso Verão e já está cheia de folhas e futuras flores. 

Pelo meio fiz também um pequeno caminho de pedra ladeado por plantas colocadas de forma bastante informal: narcisos, camomilas, primulas, ipheion, margaridas, crocus, entre outros bolbos e plantas. Como eu queria que o espaço se aproxima-se daquele ambiente informal e natural que se vê nos campos e florestas, deixei o espaço propositadamente "descuidado" para permitir o surgimento de plantas selvagens.


Narcisos "Winston Churchill" e "Ice Follies"

Narciso "Ice Follies" a acordar.

Leucojum aestivum

Narcisos "Ice Follies" e "Mount Hood"

Anemonas blanda e de Caèn por entre os troncos de oliveira.

As cores da camomila combinadas com os narcisos. Uma ideia a continuar nos próximos anos. 

Anemona blanda

Narciso "Mount Hood"

Anemona de Caèn

Anémonas a crescerem entre os troncos de oliveira.

Muscari armeniacum com uma Prímula em pano de fundo.

Camomilas com uma Prímula atrás.
Camomilas e Prímulas a ladear o caminho de pedra. 

Ciclamen




sexta-feira, 6 de março de 2015

A importância medicinal do solo

Nesta publicação eu poderia exemplificar o caso de uma pessoa, em casa, que diz para alguém que está com ela que vai à farmácia. E, para espanto da pessoa que fica em casa, a pessoa que saiu não pegou nas chaves do carro para ir à farmácia, mas sim na sua pá de jardinagem e foi meter as mãos na terra. Estranho não?

Na realidade não. Um estudo publicado na revista "Neuroscience" chamado “Identification of an Immune-Responsive Mesolimbocortical Serotonergic System: Potential Role in Regulation of Emotional Behavior” e que data já de 2007, mostra que existe uma associação benéfica entre a bactéria Mycobacterium vaccae existente no solo, e a saúde mental e física humana. A base do estudo partiu uma da vez mais da percepção de que o aumento significativo de doenças nas últimas décadas, como as alergias, de devia à progressiva esterilização dos ambientes em que vivemos. 

De acordo com a equipa de investigação, liderada por Christopher Lowry da Universidade de Bristol, Reino Unido, esta bactéria tende a reforçar o sistema imunitário humano e a aliviar os sintomas da depressão. A bactéria, ao entrar no corpo humano, induz o corpo a aumentar a produção de serotonina, que é responsável pela sensação de felicidade. 

Bem, para nós, jardineiros, ver a ciência falar disto como um facto comprovável deixa-nos inevitavelmente como um sorriso na cara. É quase como se nos falassem de algo que para nós já não é novo, mas desta vez com a força e respeito da ciência. Não há nada como o repouso interior que se sente depois de um dia bem passado entre a terra, plantas e árvores. Em verdade, nunca ouvi falar de jardineiros (por paixão e não apenas por profissão) que sofressem de depressão. Creio que faltava apenas um toque de ciência para comprovar aquilo que o nosso instinto sempre nos disse. 

Há uns tempos, estava eu a ver o documentário da BBC "The Lost Gardens of Heligan", no qual, a certa altura, Tim Smit, o proprietário da quinta, falava, como quem fala de coisas importantes transformando-as em coisas naturais, que o suicídio era algo particularmente raro entre os jardineiros e que, entre eles, reconhecia a existência de uma calma e ritmo que irritaria qualquer um. 

Ainda um outro estudo, desenvolvido por Dorothy Matthews e Susan Jenks, defende que existe um relação entre o contacto com a Mycobacterium vaccae e o aumento da capacidade de aprendizagem. 

Curiosamente, dei por mim a investigar mais o assunto e deparei-me com um estudo da Fundação Champalimaud, liderado por Zachary Mainen, que concluiu que existe uma associação positiva entre a paciência e o aumento de serotonina. Uma vez mais identifico-me com estudo. Por vezes falo com outras pessoas sobre o prazer que é cuidar de plantas e do solo. Muitas dizem-me que nunca teriam paciência para esperar meses até que uma planta produza o resultado esperado, seja flor ou fruto. Bem, eu raramente penso sobre o resultado final, porque aquilo de que realmente gosto é do processo e do prazer que me dá ver uma planta nascer, cuidar dela, olhar por ela e vê-la torna-se feliz e adulta. 

Acho que gosto mais do momento em que, de uma pequena semente emerge uma planta. E para algumas, isso requer mesmo muita paciência. Muitas plantas, como as anémonas japonesas, podem levar meses a nascer. As clematites podem levar 2 anos a nascer; e um trilium, caso o consigam fazer germinar, pode levar 7 anos até dar flor. Isso sim é muita paciência. Mas quando germinam....que sensação...que alegria....quase parece que se subiu não um degrau, mas um andar na arte da horticultura. Mas no fim, prefiro não contar estes pormenores aos mais impacientes, porque aí é que acho que eles não iriam perceber nada desta paixão pelas plantas.

Mas no fim de contas, tudo isto nos mostra o quão importante é preservar a vida existente no solo e adoptar métodos e técnicas agrícolas que não ponham em causa a vida destes organismos. Isto porque não são apenas as plantas e os animais que estão em risco de extinção. O solo produtivo também está em risco de extinção.  


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Soluções engenhosas


No nosso dia-a-dia temos por hábito deitar fora materiais que, com alguma criatividade, poderão ser muito úteis no jardim. E para quem não tem o espaço, recursos ou o dinheiro que gostaria de ter para melhorar o jardim, estes materiais poderão tornar-se numa boa alternativa e, melhor ainda, recicla-se materiais que caso contrário poderiam poluir o meio-ambiente. 

Por exemplo, o cartão (não colorido) é optimo para a compostagem. Outra coisa que também tenho por hábito fazer é reciclar folhas de jornal para fazer pequenos vasos para as plantas. A grande vantagem é que, quando chegar a hora de plantar, basta molhar bem o vaso e plantar directamente na terra sem que as raízes sejam perturbadas. 

As garrafas e garrafões de água são óptimos sistemas de rega gota-a-gota. Se decidir ausentar-se  de casa durante uns dias e tem receio que as suas plantas possam vir a ter falta de água, encha uma garrafa, ou um garrafão caso sejam várias plantas ou o período de ausência seja longo, faça um pequeno furo no fundo e coloque a garrafa em pé sobre o solo. Verá que a água se irá libertar lentamente, permitindo assim à planta ter uma fonte permanente de água durante algum tempo, sem que ela fique encharcada. 

Aqui no meu jardim, como tenho falta de espaço para fazer sementeiras directas de todas as plantas, utilizo os tabuleiros de esferovite da carne que se compra no supermercado como tabuleiro de germinação. Basta apenas fazer alguns furos para drenar bem a água e, em poucos segundos, tenho o problema resolvido. Quando as plantas começam a desenvolver as folhas verdadeiras, coloco-as então num vaso individual. Depois escolho as melhores para colocar no jardim. 

Por outro lado, se gostava de semear algumas plantas, legumes ou flores, e não tem estufa para as proteger do frio e da geada, eis o meu truque. Uma vez mais reutilizo as embalagens da carne do supermercado, mas destas vez as de plástico transparente. Uma, eu utilizo como tabuleiro de germinação e, a outra, utilizo como cobertura. Em poucos segundos tenho uma pequena estufa, que não me custou qualquer dinheiro. Pode ser colocada num parapeito da janela onde apanhe sol ou até mesmo deixada na rua, desde que cole as embalagens com fita-cola. Eu coloco simplesmente um peso em cima por causa do vento. 




No final do Outono semeei duas variedades de alface que, mesmo sendo variedades para cultivo de Inverno, tiveram sérias dificuldades em germinar e crescer com o frio de Dezembro de Janeiro. No final de Janeiro semeei a alface "Rainha de Maio" usando uma destas estufas improvisadas e os resultados foram impressionantes. Oram vejam as diferenças: 



A variedade de trás, a "Rainha de Maio", conseguiu, em menos de um mês desde a sementeira, crescer o dobro em relação às duas da frente que demoraram mais de 2 meses para chegar a este estado. 

À primeira vista pode parecer que esta técnica de sementeira não rende plantas suficientes, mas na realidade, estes três tabuleiros produziram mais de trezentas alfaces. Bastou-me apenas transplantá-las para os tabuleiros alveolares, onde irão agora crescer durante mais um par de semanas até estarem prontas a serem plantadas. É um processo que requer alguma paciência, mas vale a pena porque consegue-se maximizar o espaço e não há desperdício de plantas.