domingo, 23 de abril de 2017

(O meu) Sucesso com legumes

Falar de sucesso no cultivo de legumes é sempre relativo. Todos os anos há sempre alguma coisa que falha: os alhos que não cresceram como queríamos, os tomateiros atacados por fungos, as couves devoradas por lagartas ou os melões que de doce não têm nada. Mas com alguma perseverança, ano após ano, a experiência faz de nós melhores jardineiros. No fim de contas, começamos a perceber que nem tudo pode realmente ser como os livros nos dizem. 

Na minha experiência, o sucesso progressivo que tenho conseguido deve-se principalmente a 4 factores: observar e copiar a Natureza, compreender o solo, compreender o clima e compreender as plantas.

Porquê imitar a Natureza? Bem, no seu meio natural, as plantas crescem e prosperam sem intervenção do Homem. A nossa função é tentar perceber quais os mecanismos naturais que permitem o desenvolvimento das plantas e tentar copiar essas condições nos nossos jardins. Trata-se de perceber princípios fundamentais, como por exemplo, de que forma é que Natureza regenera os solos, como é que a água pode ser naturalmente conservados nos solos, como proteger as nossas plantas de pragas e doenças ou quais as condições em que uma planta consegue prosperar no seu meio natural. De nada adianta ir contra a Natureza, pois ela consegue sempre vencer-nos.



A compreensão do solo é uma causa que me é muito querida. O solo é um organismo vivo. É nele que se encontram, não só os nutrientes que as plantas precisam para crescerem saudáveis, mas também a vida microbiana, como as bactérias ou os fungos micorrizóticos, de que as plantas necessitam para crescer. Perturbar o solo é destruir esta rede de seres vivos que sustentam toda a vida que emerge do solo.

Quanto ao clima, existe alguma flexibilidade quanto às temperaturas, baixas ou altas, que as plantas toleram. Mas acima de tudo, é importante saber qual a época do ano em que cada planta se sente bem. É claro que, com alguns truques é possível cultivar plantas fora de época. Porém, a qualidade, a nutrição e sabor de uma planta nunca serão bons se esta for cultivada em épocas do ano que lhe são estranhas. Em vez disso, apreciemos aquilo que de bom nos traz cada época do ano.

Por último, importa compreender as plantas. Importa compreender como funcionam as suas raízes, a que profundidade é que elas se encontram no solo, quais os nutrientes em que são mais exigentes e de que forma elas se podem ajudar mutuamente a crescerem saudáveis. Além disso, eu tenho uma regra sagrada: cultivar a variedade certa na época certa. Por exemplo, para o Inverno, existem variedades de alfaces que toleram o frio, enquanto que para o Verão existem variedades resistentes ao espigamento.

Estes são os princípios sobre os quais tenho construído a minha experiência na produção de legumes. Mas porque cada região é única, também a experiência de cada um é única. Cabe-nos, nas condições que temos, tentar continuar a construir espaços que complementem a Natureza.


domingo, 29 de janeiro de 2017

Fritillaria imperiallis


Se há bolbo que nos últimos tempos tem vindo a gerar muita curiosidade entre os jardineiros portugueses, é a Fritillaria imperiallis. Há muito cultivada nos países do norte da Europa, por cá, o interesse é recente, mas cada vez maior. Esta sim é a verdadeira Coroa Imperial, e não os lírios.



Contudo, fruto do desconhecimento, oiço muitas vezes pessoas que não as conseguem cultivar. Nem sequer nascem. Até hoje, já cultivei a minha favorita Fritillaria meleagris e a Fritillaria persica, mas a F. imperiallis continua a escapar-me. Por isso, este ano decidi experimentar. A variedade que plantei chama-se "Aurora".

Fritillaria meleagris
As causas para tanto insucesso podem ser várias: muitos bolbos podem vir contaminados com fungos e doenças, que conduzem ao seu apodrecimento após serem plantados; posicionamento do bolbo no solo de forma errada; plantação em solos inadequados, como os solos argilosos, pesados, ensopados e com má drenagem ou plantação na altura errada. 




À excepção de algumas espécies, as fritilárias preferem solos com boa drenagem. Gostam de Invernos frios e, tal como a maioria dos bolbos, padecem facilmente com o ataque de fungos. As fritilárias devem ser plantadas quando o tempo arrefece, pois tal como as túlipas, se forem plantadas em solo húmido e ainda quente, podem ser facilmente atacadas por fungos e apodrecem. Na realidade, tenho encontrado frequentemente os bolbos à venda logo em meados de Setembro, o que é demasiado cedo para eles. Muitas pessoas plantam-nos logo de imediato. Ora, nessa altura, o solo está demasiado quente para os bolbos, o que pode provocar a sua morte por desidratação. Se forem regados, o calor e humidade podem favorecer a proliferação de fungos que apodrecem o bolbo. Para quem guarda o bolbo até o frio chegar, acontece frequentemente ver que já está mole, semi-desidratado e com bolores que evidenciam a existência de fungos. O melhor, será comprar o melhor bolbo possível quando estão à venda (grande, firme e sem indícios de fungos), guardá-lo num sitio fresco e aguardar até à chegada do frio pela plantação. No que toca ao apodrecimento, a existência de boa drenagem ajuda a prevenir esse problema, já que o bolbo não fica "afogado" em água. Além disso, os bolbos das fritilárias têm uma característica muito especial: possuem uma cavidade no seu interior. Por isso, o bolbo deve ser plantado de lado, e não em pé, caso contrário, a água entra nessa cavidade e, como não consegue sair, pode apodrecer o bolbo. 

A característica cavidade no centro do bolbo. 

Porque o meu solo é muito argiloso, húmido e pesado, tem tudo menos boa drenagem. Por isso plantei-as em vasos de cerâmica (é porosa e, por isso, melhora a drenagem; vasos de plástico não são a melhor solução para plantas que requerem boa drenagem durante o Inverno). Utilizei uma mistura de composto feita por mim próprio: composto de folhas, areia e composto de compra. O composto de folhas suaviza a textura do composto e evita a compactação; a areia melhora a drenagem, e o composto de compra providencia uma nutrição extra para o bolbo. Coloquei o bolbo fundo no vaso e de lado. Agora, é só esperar que a Primavera estenda a sua mão e faça a sua magia!  

O bolbo plantado de lado para impedir que a humidade se aloje no seu interior. 



domingo, 1 de janeiro de 2017

O primeiro encontro

Há alguns meses atrás tive a oportunidade de conhecer o Gonçalo Santos que, tal como eu, é um grande apaixonado por plantas. Rapidamente nos tornámos bons amigos e, quase todos os dias trocamos ideias e dúvidas. Se eu não consigo viver sem os meus legumes, frutas e flores, o encanto dele são as plantas aromáticas. Tal é este encanto que ele criou o blogue "Something in the yard", através do qual ele dá a conhecer a sua colecção de plantas e partilha conhecimento, não só sobre elas mas, acima de tudo, como cuidar delas. Um excelente blogue, posso dizer.

Mas nos últimos tempos o Gonçalo está a ser atacado pelo bichinho das flores. O pelo menos assim parece. Nas últimas duas semanas é rara a conversa em que ele não me fale em bolbos. No fim de contas, estas conversas acabam sempre por me levar a memórias de mim próprio. O meu fascínio, desde os meus 5 ou 6 anos sempre foram os legumes. Mas, num certo dia, deparei-me com uma carteira de sementes de aquilégia e fiquei de olhos postos na fotografia. Foi amor à primeira vista. Aquelas, foram as primeiras sementes de flores que alguma vez lancei à terra.

Aquilégias um ano depois da sementeira: as felizes culpadas de uma paixão tão grande!


Depois disso, as minhas leituras sobre horticultura, levaram-me a descobrir que as flores podem ser um aliado precioso no controlo de pragas que afectam os legumes durante o seu crescimento, como também a atrair os insectos benéficos. Rapidamente percebi que as flores tinham o potencial para transformar qualquer horta monocromática e austera num espaço bonito, aprazível, relaxante e cheio de vida. E, sem me aperceber, a febre pelas flores ficou e nunca mais partiu. Ainda me recordo das primeiras flores que comprei como se fosse hoje. Melhor, ainda me recordo da sensação de alegria e plenitude que aquelas primeiras flores me deram. Numa manhã de Fevereiro de 2014, enquanto o céu ameaçava chuva, fiz uma tranquila caminhada por entre olivais, camomilas e alamedas de ulmeiros e azinheiras até ao centro de jardinagem próximo de minha casa. E de lá saí com vasos de pelargónios, bocas de lobo e salva roxa. Vinha apaixonado, feliz e crente de que a minha felicidade estava ali. Tudo o que precisava estava ali, na caixa que trazia no braços. Esta alegria está bem guardada na minha memória e, sempre que os dias parecem testar a minha resistência, recorro a ela por conforto.

Um dos pelargónios que trouxe comigo. Aquele rosa matizado em tom pastel arrebatou-me assim que o vi na loja. 

Claro que, no fim de contas, o bichinho das flores tornou-se incontrolável (felizmente). Hoje, procuro plantas raras, procuro plantas em risco de extinção; procuro plantas que, pelas suas exigências de cultivo, me fazem aprender e conhecer melhor o solo, as plantas, o clima, assim como os equilíbrios naturais de que elas dependem para crescer. E isso, quando transportado para a horticultura, é conhecimento valioso, pois permite-me cultivar legumes com melhor qualidade, menos trabalho e menor impacto ambiental.   

terça-feira, 15 de novembro de 2016

A importância do frio no jardim


O Verão já lá vai, o Outono está aí e o Inverno está já ao virar da esquina. Com ele, a chegada de dias mais frios é uma inevitabilidade. Eu gosto de frio, mas acredito que sou uma excepção entre as excepções. Se falar de frio causa arrepios a qualquer um, cuidar de uma horta ou jardim com frio torna este simples pensamento ainda menos apelativo. Mas, na realidade, o frio é fundamental para as plantas que temos no nosso jardim, para as árvores dos nossos pomares ou para os legumes das nossas hortas.

O frio é necessário para induzir certas plantas, como as herbáceas, a entrarem em hibernação. Sem hibernação, estas plantas simplesmente não conseguiram acumular energias nas suas raízes para um crescimento extra-vigoroso na Primavera.

Também no jardim, há certas plantas, cujas sementes dependem de Invernos frios para quebrarem a sua dormência e germinarem. A família das ranunculáceas, dentro da qual as Anémonas são um bom exemplo, ou a família das apiáceas, dentro da qual se incluem as Astrantias, são um bom exemplo. Sem o frio, estas sementes aprofundarão a sua dormência e nunca germinarão.

O equilíbrio da Natureza nas regiões temperadas depende também da existência de Invernos frios. O frio é um agente natural de controlo da população de pragas que, de contrário, aumentariam em número e poderiam colocar seriamente em causa a viabilidade da agricultura nas regiões temperadas. Por isso, o frio é um dos preciosos aliados de todos aqueles que seguem a agricultura biológica.

Muitas árvores, arbustos ou plantas que produzem os frutos que tanto apreciamos necessitam de frio para maximizar a sua produção. O frio permite às árvores e plantas recuperarem energias do exigente processo de frutificação. Árvores como as cerejeiras, as macieiras, as pereiras, as nogueiras, os pessegueiros, as ameixeiras ou os damasqueiros dependem, em menores ou maiores quantidades, de um determinado número de horas de frio, ou seja, temperaturas abaixo dos 7 graus Celcius. O mesmo acontece com plantas como os morangueiros, os mirtilos ou as framboesas. Isso explica o porquê de culturas, como a da cereja, apenas serem possíveis em certas partes do nosso país.


Para quem sente falta do sabor genuíno dos alimentos que cultivamos, então, em muitos casos, o frio é um dos seus melhores aliados. Apesar de estarmos habituados a ter os mesmos alimentos disponíveis todo o ano nas prateleiras dos supermercados, tudo em agricultura é sazonal. E, certas culturas, cuja época de cultivo é o Inverno por excelência, reagem ao frio adquirindo sabores mais delicados e aprazíveis. Por exemplo, os nabos, os grelos, as couves, o alho francês, as pastinacas ou a cenoura, ficam mais tenros e doces com o frio.

Sem frio, a agricultura em regiões temperadas correria o risco de colapso e, com ela, a nossa sociedade poderia ter o mesmo destino. Por isso, quando sentir os arrepios de uma manhã fria, pense positivo e lembre-se que o frio está cá por uma boa razão.




segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Cuidados com plantas herbáceas no Outono


O Outono é uma daquelas alturas em que o jardim requer uma atenção redobrada. Em especial, as plantas herbáceas necessitam já de alguns cuidados. São plantas de vida longa, perenes e que crescem em tamanho ano após ano. Com as primeiros frios, as folhas e caules morrem, enquanto que a raíz fica em dormência no solo, a recuperar energias para o próximo ano. Com a Primavera, ela volta a despertar com o todo o vigor.

Gaillardia aristata

Hellenium
Cuidar de herbáceas é relativamente simples, se forem seguidas algumas regras. Para plantas ainda jovens, plantadas este ano, o mais importante é garantir que a planta está limpa de quaisquer resíduos vegetais para evitar apodrecimentos ou alojamento de doenças fúngicas. Evite qualquer perturbação das raízes pois, até a planta entrar em dormência, isso poderá fazer mais mal que bem.

Se a planta ainda está em floração nesta época do ano, como é o caso dos crisântemos ou dos áster, corte apenas os caules quando estes começarem a morrer por acção do frio. Até lá, aprecie as flores e faça o máximo para as prolongar. Mas não se apresse a cortar os caules, pois até morrerem por completo, a clorofila existente nas folhas estará a produzir alimento, que as raízes armazenarão e usarão para gerar o crescimento da planta na Primavera.

Scabiosa caucásica "Fama"
Quer a planta já esteja estabelecida, ou não, aplique também uma boa camada de composto em redor destas de forma a que, no início da Primavera, todos aqueles nutrientes tenham sido incorporados no solo pelos microrganismos e possibilitem um melhor crescimento das plantas e a saúde do solo em geral.

Por último, ou talvez o mais importante, se pretender mover a sua planta herbácea de local, ou dividi-la para obter novas plantas, importa ter em atenção a época de floração. Plantas de floração tardia, como as Equináceas, os Heleniuns, os Crisântemos, os Aster ou as Rudbéckias apenas devem ser divididas no início da Primavera, pois continuam a crescer e florir até aos primeiros gelos. Plantas de floração precoce, que completam o seu bailado floral durante a Primavera ou início do Verão, devem ser divididas aquando das primeiras chuvas de Outono, para que aproveitem o solo já húmido e ainda quente para estabelecerem as suas raízes. Isto é importante pois, por serem de floração precoce, iniciam o seu crescimento vegetativo logo no final do Inverno. É o caso de plantas como a Pulmonária ou a Astrantia. Depois de plantar as divisões, dê-lhes uma boa regadela, mesmo que o solo esteja húmido, e aplique uma camada de composto em redor da planta sem cobrir a coroa.

Equinacea purpurea
A divisão das herbáceas não tem apenas uma finalidade económica, com a possibilidade de gerar novas plantas a partir de uma só. A divisão é também feita por uma questão de rejuvenescimento e saúde. Isto porque as plantas herbáceas têm um desenvolvimento em forma de donut. Crescem de dentro para fora. Passados dois ou três anos sem serem divididas, o crescimento verifica-se apenas nas extremidades da planta, enquanto que a parte interior perde vigor. Quando a divisão for feita, a parte interior da planta deverá ser descartada e apenas as partes mais vigorosas devem ser replantadas.

As herbáceas são amigas para a vida. Se forem bem cuidadas, elas recompensar-nos-ão com anos de flores, alegria e contentamento. E só por isso vale bem a pena aprender um pouco mais sobre elas.



segunda-feira, 21 de março de 2016

Ao som da Primavera


Provavelmente, muitos de nós associam a Primavera ao rejuvenescimento da paisagem, ou à cor das flores que irrompem de repente e põem fim à austeridade invernosa. Mas a Primavera não se faz apenas de cor. Faz-se de sons. Nos regatos, ouve-se o som da água límpida e fresca que corre e, nas árvores que agora acordam do seu longo sono, os pássaros lutam por cada ramo. 


Miosótis

Aqui, no meu jardim, enquanto continuo com o meu trabalho com as plantas, é um prazer fazê-lo acompanhado pelo canto dos pássaros: melros, pardais, andorinhas, rouxinóis...São muitos e, todos eles, bem-vindos. E, à minha volta, o aroma das frésias perfuma o ar por todo o jardim, enquanto o vento ondula a erva que cresce agora forte e viçosa. Ainda há geadas, frio, chuva e céus cinzentos. Mas tudo isso complementa o charme e encanto da Primavera aqui no jardim. É um prazer estar no jardim e fazer dele o meu trabalho. É nestes momentos que me lembro de todas aquelas pessoas que trabalham em escritórios...  

Frésias, narcisos e ranúnculos.

E, pelo meio, claro que há flores. E muitas. Há frésias, íris, miosótis, narcisos, túlipas, pulsatilas, anémonas, fritilárias, crocus e imensas aquilégias. As frésias encontraram finalmente uma rival à altura. Adoro frésias, mas gosto cada vez mais das flores da família dos ranúnculos (ranunculaceas), como as aquilégias ou as anémonas. Alegra-me também ver que, com o crescimento dos dias e a combinação de chuva e de dias mais amenos, os vegetais crescem agora mais depressa. Dentro em breve não haverá cestas que cheguem para todas as colheitas a fazer. É que a Primavera traz com ela abundância. Por ela esperarei com expectativa.

Aquilégia.

Aquilégias e goivos.

domingo, 13 de dezembro de 2015

Aprendizagens inesperadas



Não há dúvidas que, para quem começa a jardinar ou cultivar legumes sem qualquer conhecimento, os livros são muito úteis. Em parte, eu também tive de passar por essa fase e, em alguns temas, ainda estou nela. Mas, é difícil bater a experiência no que toca a fontes de aprendizagem. 

Quando o nosso pensamento anda embrenhado em culturas, variedades, plantas companheiras, sementeiras sucessivas para garantir a continuidade, pode parecer difícil parar por um pouco e dedicar algum tempo a observar o comportamento das plantas e dos animais, benéficos ou não, que fazem do jardim a sua casa. Mas isso é, talvez, uma das partes mais fundamentais quando se trabalha com plantas. E nos momentos em que reparo em algo de que nunca me tinha apercebido, quase parece que a minha mente ultrapassa mais uma barreira. 

Este Verão, as minhas nabiças foram severamente castigadas pelo escaravelho. Pouco delas tirei. Como não uso fitofarmacêuticos, estava fora de hipótese usar um insecticida. Além do mais, o mal já estava feito. Mas, como diz o velho ditado, "conhece o teu inimigo melhor que a ti mesmo". Por isso, lá fui estudar o ciclo de vida do escaravelho para compreender uma forma de evitar a repetição do erro. Mas, porque o escaravelho ataca, não só as nabiças, mas todas as brássicas (nabos, couves, bróculos, etc), receei que os escaravelhos se expandissem aos bróculos. Curiosamente isso não aconteceu. Fiquei com a pulga atrás da orelha. Certo dia, reparei na forma como o escaravelho voava; voava baixo e ao longo de curtas distâncias. Entre os bróculos e as nabiças eu tinha semeado dois canteiros grandes de feijão de trepar que, depois de crescido, formou uma barreira muito alta e densa para o escaravelho conseguir chegar até aos bróculos. Poderá não ser verdadeiramente assim, mas compreendi que se existissem barreiras densas e altas entre as culturas, os insectos indesejados têm mais dificuldade em chegar a todas as plantas.


Mais recentemente, enquanto retirava algumas ervas daninhas dos meus nabos, reparei numa borboleta branca que se preparava para depositar os seus ovos entre os nabos. Entre os três canteiros que tenho, reparei que ela apenas se dirigia àquele onde os nabos nasceram em maior quantidade. Ao longo dos dias reparei que outras borboletas faziam o mesmo. Concluí que a borboleta se sente mais atraída pelos locais onde a disponibilidade de alimento é maior. Nos canteiros onde os nabos narceram de forma errática, existiam menos plantas, portanto menos alimento. Além disso, ao ter as plantas mais espaçadas, deixa de haver abrigo seguro para as pestes e cria-se espaço aberto no qual os predadores naturais, como os pássaros, podem facilmente detectar as suas presas.

Bem, resta dizer que na agricultura industrial, porque a intenção é a maximização da produção e, portando, do ganho, a opção pelas monoculturas torna as plantas alvos fáceis às pragas. Não há barreiras naturais contra o avanço dos insectos indesejados e a grande concentração do mesmo tipo de planta num grande espaço transforma estas culturas num verdadeiro manjar para as pragas. Por isso, venha daí o insecticida.